cinema é cachoeira: os filmes de ary rosa e glenda nicácio – foco rosza filmes
A Embaúba Play dedica, nas próximas duas semanas, um foco especial à trajetória da produtora Rosza Filmes, fundada pelos cineastas Glenda Nicácio e Ary Rosa. Surgida no ano de 2011, em meio ao processo de interiorização do ensino público no Brasil e à ampliação de políticas públicas voltadas à produção artística, a Rosza Filmes se desenvolve a partir da chegada da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) à cidade de Cachoeira, ampliando as possibilidades do fazer cinematográfico no interior do Recôncavo Baiano. Seu trabalho estabelece uma profunda relação com a força inventiva desse território, com os encontros ali construídos e com a abertura de caminhos para além do eixo hegemônico das grandes capitais. Trata-se de um projeto artístico que parte de um chão específico – histórico, cultural e comunitário -, reelaborando-o a partir de um olhar artístico muito próprio a cada filme. Em entrevista à Revista Cinética, Ary Rosa descreve esse processo como a necessidade de compreender o Recôncavo em suas culturas, tradições e potências, aproximando-o dos filmes por meio de suas linguagens, corpos, falas, paisagens e modos de produção.
Em celebração a essa trajetória, realizou-se, em 2024, a mostra Cinema é Cachoeira: os filmes de Ary Rosa e Glenda Nicácio, coproduzida pela Rosza e pela Elo Studios, que percorreu as cidades de Salvador (BA), São Paulo (SP), Rio de Janeiro (RJ), Poços de Caldas (MG) e Belo Horizonte (MG). Dando continuidade a essa iniciativa na Embaúba Play, apresentamos o conjunto de seis longas-metragens da dupla: Café com Canela (2017), Ilha (2018), Mungunzá (2024), Até o Fim (2020), Voltei (2020) e Na Rédea Curta (2022), todos dirigidos por Glenda Nicácio e Ary Rosa.
Entre esses filmes, Café com Canela (2017) evidencia, de forma exemplar – assim como a obra dos realizadores em seu conjunto -, o coletivo como força vital do território do Recôncavo Baiano e como princípio estruturante da própria linguagem cinematográfica. Mais do que representar um modo de vida, o filme incorpora a fala, os encontros, a contação de histórias e o diálogo como formas genuínas de criação imagética, articulando tradição cultural e invenção estética.
Se, por um lado, a centralidade da palavra responde também às condições materiais de produção, por outro, expande as possibilidades do cinema ao mobilizar a imaginação do espectador, fazendo com que palavra e imagem operem em estreita colaboração. Desde a abertura que entrelaça imagens de arquivo familiares a encontros marcados por narrativas compartilhadas, o filme constrói um cinema de convivência, fundado na escuta, na memória e na troca.
A trajetória de Margarida, atravessada pelo luto e pelo cuidado coletivo, encontra na mesa do café e nos espaços cotidianos – especialmente a cozinha – territórios de acolhimento, onde a fala se torna instrumento de elaboração da dor. O filme organiza-se, assim, como uma rede de encontros e vozes, aproximando cinema, ritual e experiência comunitária, e afirmando a palavra falada como gesto estético que transforma o ato de narrar.