Vermelho Bruto
Amanda Devulsky
2022, 206 min
Entre esta e a próxima semana (28/11), lançaremos o foco dedicado a Amanda Devulsky, com a exibição do curta Tente não existir (2018), do média Artificial porém muito sensível (2024) e do longa Vermelho Bruto (2022). A cineasta brasiliense articula, em sua obra, uma ampla investigação sobre a diversidade dos formatos digitais – e o faz, nada paradoxalmente, explorando as extensões mais materiais dessas imagens. É um virtual que se deixa tocar. Do VHS da infância, que irrompe em Tente não existir, às texturas de uma ressonância cerebral em Artificial porém muito sensível e à teia temporal complexa de Vermelho Bruto, cada superfície tem peso nos filmes de Amanda. Cada superfície convida, seduz, embaralha.
A espacialidade de seus trabalhos, que oscila entre o mais concreto – a escola, a casa – rapidamente nos transporta a outros pontos do mundo: a uma praia deserta, sem referências, ao desfecho de outro filme, a um território onde tudo parece simultaneamente presente e deslocado. Há também uma dissolução do eu, visível em Artificial, seja no romantismo no ar entre tantas mulheres, seja na indefinição multiplicadora produzida pelas manchas vermelhas em seus rostos, no anonimato que recobre as figuras. Dessa indefinição nasce também o erotismo do filme – um erotismo que é, ao mesmo tempo, próprio de um romantismo barato e fruto da mais concreta organicidade com que as imagens maquínicas são tratadas.
Vermelho Bruto é um filme que se move entre dois tempos e produz, nesse movimento, uma imersão singular na vida de quatro mulheres e mães – Alessa, Eunice, Fabiana e Jô -, que atravessaram com a maternidade o processo de redemocratização do Brasil (1985–1995). Seus arquivos pessoais friccionam o cotidiano presente, suas narrativas íntimas e distraídas, ainda assim permeadas pelas tensões políticas do Brasil atual às filmagens. Trata-se de um filme cujo interesse no experimental libera seus arquivos de uma finalidade política clara, de enunciados claros, podendo as imagens que se pretendem menos políticas tornarem-se, via montagem, aquelas que mais contam de uma história política do Brasil. Assim, afasta-se do documentário convencional que visa “contar uma história” uma vez que deseja ir de encontro à história dissipada, reconhecendo no experimental uma estratégia para relacionar-se com o material produzido por essas mulheres. Estamos ligados a elas sobretudo por suas vozes e olhares, mais do que por suas faces, num gesto em que a enunciação se expande para além da figura de quem fala. As imagens também se desprendem de suas autoras que, apesar das diferentes origens, histórias e classes sociais, convergem no grande emaranhado que o filme constrói. Nesse jogo entre o particular e o amplo, forma-se uma atmosfera flutuante que torna ainda mais pungente, por exemplo, momentos como o que Alessa tenta explicar à filha o significado da eleição de Jair Bolsonaro enquanto buzinas na rua invadem, de forma abrupta, sua casa.
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