Fratura exposta parte I: “A Sonâmbula”
Natália Reis
2020, 7 min
O cinema experimental de Natália Reis evoca uma relação com as máquinas mediada pelo prazer – sobretudo quando esse prazer surge da distorção e do estranhamento. Tanto em sua atuação como crítica (atualmente, redatora da Revista Multiplot) quanto em suas produções no campo do cinema e das artes visuais, Natália interessa-se imagens de naturezas diversas: nos filmes, vai do pornô ao erótico, dos brilhos pixelados às fotografias desviadas de Juiz de Fora, das bailarinas da Broadway às figuras anônimas. Em seu trabalho, essas imagens são conduzidas até um ponto de saturação, acompanhadas por vozes artificiais e por mulheres notívagas – apaixonadas também por outras mulheres notívagas. Em Inferno Remix (2022), ressoam ecos de Catherine Breillat: a ambiguidade violenta de seus filmes aparece distorcida, organizada de tal forma que o corpo em cena convida, mas não se deixa apreender; seduz, mas logo se esquiva. Nos filmes de Natália, os corpos prevalecem enquanto matérias disformes, nunca estáveis.
Esses jogos de entrevisão retornam em seu mais recente Jamais Visto (2024), agora sob uma chave mais irônica: o realismo de um Juiz de Fora estranha, intoxicada, estroboscópica e sem rosto, que desliza na tela como a projeção (“aqui tudo parece que era ainda construção e já é ruína”) de um futuro industrial. Em registro de ficção científica distinto, Lua em Câncer (2021) imagina um sonho-futuro mediado pela Lua: as Ziegfeld Girls atravessam a tela digital como se mergulhassem em um magma escuro, alcançando apenas lampejos de luz artificial, prateada, lunar – que bem faz lembrar do baile de The Very Eye of Night (Maya Deren, 1958). Um filme que se oferece como um banho de lua, onde mulheres devotam sua dança e seu cinema às luzes maquínicas. O aparato abastado de um espetáculo da Broadway é subtraído, restando as mulheres e sua noite.
Assumir a monstruosidade das formas, visitar outras galáxias: em Planetário há um encontro livre entre mulheres nuas e um frescor cósmico, que se afetam e se encantam mutuamente. Um filme lésbico de nudismo — mas, ao invés de visitar a praia, visita-se a Lua. Fratura exposta pt. I: A Sonâmbula opera a partir da interação de formas saturadas, de uma superfície de tela constantemente corrompida para dar lugar, sem cessar, a novas formas. Nesse movimento, prepara-se para a irrupção de mulheres e insetos na imagem, enquanto exibe, simultaneamente, um discurso punk de catástrofe e desintegração. Por fim, em Febre 40°, Natália parte do pornô em sua dimensão mais superficial, ao mesmo tempo orgânica e maquínica. O filme aciona – e simultaneamente questiona – o webtesão, articulando estratégias artificiais que fazem sentir no corpo do filme, no corpo-óptico, nas terminações nervosas tanto quanto nas terminações elétricas.
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