Minhas Férias
Nicolas Thomé Zetune, Felipe André Silva
2025, 16 min
Os filmes de Nicolas Thomé Zetune costuram, de forma estranha, dois extremos que suporíamos à primeira vista opostos, e que aqui se revelam inseparáveis: um tom menor, melancólico, ao lado das cintilâncias vibrantes dos artifícios. Entre os filmes, sobressai uma atenção à lugubridade que envolve seus personagens – sujeitos deslocados e dissonantes em relação ao entorno, marcados por olhares densos, silêncios e fantasmas próprios. Dos filmes de mulheres armadas ao horror, da ficção científica à literatura, do interesse pelo sonho e pelo amor, parece importar-lhe o que se pode extrair do clima e das atmosferas construídas: a experimentação das imagens desde aquilo que as assombra, que ameaça silenciosamente invadir e que repentinamente o faz. Neste foco, apresentamos cinco filmes do diretor: Ingra! (2022), As coisas infinitas: menino com boné (2019), Fantasma Memória (2023), São Paulo com Daniel (co-dirigido com Deborah Viegas, 2015) e Minhas Férias (co-dirigido com Felipe André Silva, 2025), seu mais recente curta-metragem, lançado através deste programa.
Em Ingra!, voyeurs, vigilantes e o passado rondam a protagonista, interpretada por Ingra Harry. Entre a correria do trabalho e a fuga indeterminada, Ingra se deixa levar pelo vento do metrô e pelos cigarros duplos – até ser, mais uma vez, arrebatada pelos gritos da cidade e assombrada pelo próprio filme. O acerto de contas é sexy, em súbitos neons automobilísticos, mas nunca explode: algo essencial nos filmes de Nicolas, que na mesma medida em que se deixam levar pelos códigos de gênero e seus artifícios também tornam-os anômalos por sua melancolia. Há o indício de uma explosão tanto quanto seu esvaziamento. Um movimento semelhante se desenha em As Coisas Infinitas: Menino com Boné (2019), em que vemos jogos entre crianças e monstros se embaralhando com expressões singelas do desejo. A atenção do espectador, constantemente conduzida pelo suspense, delicadamente verá surgir outra faceta encantada do gênero no olhar do personagem principal do filme, interpretado por Kauã Arruda Pinheiro.
Minhas Férias é um filme de viagens temporais – ali, entre os corredores e janelas do Edifício Copan -, filme de encontros improváveis, filme de festinha estranha. Trabalha-se uma espécie de erotismo rarefeito, onde a forma expressiva dos gestos e da palavra dita sem grandes índices emotivos conduz o espectador a um estado literário e a uma representação deliberadamente artificiosa, característica tão presente nos filmes de Nicolas. Das referências a Robinson Crusoé às brincadeiras de montagem – pequenos bugs digitais e aparições fantasmagóricas -, Minhas Férias manifesta o insólito através de patologias flagrantes na própria forma do filme. O excesso fica pela sujeira na tela, na virtualização farsesca das relações e na densa dissonância do forasteiro temporal, interpretado por Caio Horowicz.
Também pelas ruas de São Paulo, Fantasma Memória e São Paulo com Daniel revelam duas facetas dessa experiência urbana. No primeiro, Em Fantasma Memória os personagens se destacam pela cor de seus casacos vermelhos na paisagem ampla da cidade, enquanto os escutamos muito de perto. Amigos caminhando, fumando maconha, conversando sobre cinema – e toda a suspensão que isso provoca na ordem do dia, formulando seu próprio tempo, seu próprio sonho e saudade. Por fim, em São Paulo com Daniel, a cidade erótica dissolve o mau-humor do protagonista, interpretado por João Paulo Bienermann, transformando-o através de um encontro com outro homem, mais velho e charmoso – ora o fulgor do amante, ora o ódio contido nesse mesmo papel, ou ainda o poder que a posição lhe confere, ao fim e após algumas lágrimas deixadas pelas calçadas.
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