A sua imagem na minha caixa de correio
Silvino Mendonça
2024, 17 min
Essa semana, a Embaúba Play destaca dois curta-metragens do realizador Silvino Mendonça, que é também artista visual e designer gráfico: “A sua imagem na minha caixa de correio” (Silvino Mendonça, 2024) e “Paisagem em chamas” (Silvino Mendonça, 2023), ambos lidando, à sua própria forma, com as materialidades de uma cinefilia que hoje se encontra em escassez, oculta por igrejas evangélicas, pelo individualismo e a virtualidade do letterboxd, por cidades que nos fazem esquecer.
No primeiro curta, Mendonça nos lança aos anos 2000 e às revistinhas SET, jogando com fragmentos de bocas e olhos sedutores das celebridades do cinema que, naquele momento, provocavam no espectador brasileiro um tipo de atração passional, dedicada não apenas às imagens de atrizes e atores, como também ao cinemão que circulava de maneira mais ampla no país. Para além dos colecionismos de objetos, ingressos, revistas, pôsteres de filmes e tudo o mais que produzisse um acervo de amor a este cinema, Mendonça nos abre às cartas trocadas pelos amantes de cinema através das revistas, apontando para um certo tipo de partilha rara, em que, a partir do cinema, podiam-se criar amizades entre meros anônimos.
Ainda assim, o curta, cuja trilha sonora nos provoca uma certa magia, não deixa de produzir estranhamentos, passando das celebridades às lacunas materiais – de cartas sem resposta, de figuras sem face – impressas nas imagens do filme. Há um ir e vir entre a memória dessa cinefilia, uma aproximação das seduções que a rondavam e também uma certa brincadeira com a intensidade de suas obsessões, observando certa solidão entre os mais apaixonados, bem como a lida com tais celebridades enquanto puras imagens, jogando com o esvaziamento disso.
Desse caráter de maior negatividade em torno das lacunas materiais, vamos ao segundo curta-metragem do realizador, “Paisagem em chamas”, no qual Mendonça percorre a cidade de Brasília indagando pelos cinemas que desapareceram e, em especial, pelo Cine Academia. Diferente (ou não) da maior parte dos cinemas de Brasília que desapareceram, este tornou-se tão somente ruína: através dela, percorrem as imagens do filme, com fotografias em preto e branco de um acervo de películas espalhadas pelo chão, soltas e embaralhadas, formando grandes nós de imagens empoeiradas. As cadeiras gastas, o pôster ainda presente em uma mesa anunciando “A Sogra”, com Jane Fonda, os muitos anúncios de empreendimentos imobiliários tomando a cidade e um rápido flash conhecido de um torrent a semear nos fazem perguntar, assim como no primeiro curta, pelos rastros de nossas cinefilias hoje.
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