Trabalho de Amor Perdido
Vinícius Romero
2024, 14 min
O cinema experimental de Vinícius Romero, à guisa de uma poesia indócil da luz, oscila entre a forma e sua corrupção, entre viagens por telas digitais, fotogramas celestes e chamuscados, brincando conosco na curiosidade sobre as formas de invenção de suas imagens. O diretor nos instiga a buscar suas estratégias para logo em seguida traí-las, desviando lógicas e funções. Técnicas que não cessam de se transformar. Mais ainda: oferecendo-nos hoje o deleite (raro) de um cinema que renova o pacto com uma crença desmedida na liberdade das formas. Reunimos seis filmes do diretor, abrangendo o período de 2020 a 2024, e esperamos que, por meio deles, o público possa se aproximar ainda mais de sua obra, que, embora nos remeta de forma tão intensa à experiência da sala de cinema, também pode ser descoberta em outras superfícies.
Em entrevista concedida a Gabriel Linhares*, Romero comenta seus métodos de criação – fotografar em vez de filmar, trabalhar fotograma por fotograma, explorar as superfícies do digital, inventar máquinas anacrônicas, fabricar lentes a partir de óculos de sol, entre outras muitas experimentações. Importa ao cineasta extrair possibilidades de arranjos improváveis, no plano dos aparatos, de relação com o mundo, de montagem. O ritmo de seus filmes, marcado pela repetição e pelo levar ao limite, por cadências instáveis, entre borrar e clarear, entre tomar forma e deformar, parece buscar uma vertigem própria das imagens. No caso de Trabalho de amor perdido (2024), o ritmo oscilante entre o veloz e o que perdura revela justamente a corrupção das imagens belas, configurando um trânsito de memórias e um ritmo de perda – uma beleza da perda. Tal crescente interrupção do sublime via montagem será também estratégia de seu longa Cantochão (2022).
Em Duna Atacama (2024), também produzido pela carioca MBVIDEO, Romero faz encontrar oceanos com o árido deserto, ou ainda a suspensão extraterrestre da ficção científica com o atrapalhado circo turístico. Está no grupo e, ao mesmo tempo, dele se desprende: vai perder-se entre as rochas, seduzido por mistérios e pelos vestígios do tempo inscritos em suas formas. Quem convoca a câmera é o sol, com toda a variação cromática revelada porque o diretor se aproxima do seu excesso: surgem os grandes vermelhos, rosas e azuis que se estendem, os laranjas de terra molhada. A profunda ligação entre as imagens e a materialidade do lugar passa entre os grãos de areia e as partículas da tela, da aspereza das rochas para a maneira como o digital toca o mundo, das texturas cársticas e geomórficas para a câmera enquanto corpo-tátil, que as observa fotograma a fotograma para melhor conversar com elas.
As superfícies de Bai gosti/Eros afogado em lágrimas (2021) tateiam zonas de frio e calor, de azul e laranja, e soam barulhentas. É um filme sujo, de ritmo pesado – não permitindo que nada se consolide, antes forçando figuras à desintegração. Já 23 Painéis para ‘La Battaglia Celeste tra Michele e Lucifero’ (2021) encontra a violência de batalhas celestes nas convulsões cromáticas, ora aprofundada pela contraposição à luz e o frenesi da montagem, ora serenizada em fluxos magmáticos e interiores. A ida dialética aos céus aparece também em A densa nuve, o seio (2020), espécie de filme-trovão, curto-circuito das muitas superfícies luminosas que observa ou, ainda, um mundo visto como brasa incandescente. Quanto mais queimam, mais as imagens de Vinícius Romero proliferam.
*FALCÃO, Gabriel Linhares. Entrevista com Vinícius Romero sobre Duna Atacama. In: Dossiê Sessão Babel. Rio de Janeiro: Cinemateca do MAM, abr. 2025. Disponível em: https://mam.rio/cinemateca/sessao-babel/#secao13.
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