embaúba play + vitrine filmes VI
Dando continuidade à parceria com a Vitrine Filmes, apresentamos o quinto lançamento desta colaboração, que reúne quatro obras: Ontem Havia Coisas Estranhas no Céu (Bruno Risas, 2020), Chão (Camila Freitas, 2019), Cidade Pássaro (Matias Mariani, 2020) e Nona: se me molham, eu os queimo (Camila José Donoso, 2019). São filmes que tensionam as fronteiras entre ficção e documentário, instaurando zonas de instabilidade entre a experiência e a especulação, entre o real e sua fabulação. Ainda, a ficção confere às obras um caráter de maior proximidade com a dimensão do real: incêndios, óvnis, labirintos e utopias políticas constituem signos de uma imaginação livre, acompanhados por uma câmera atenta à sua manifestação no mundo concreto das personagens e das pessoas filmadas.
Em Ontem Havia Coisas Estranhas no Céu, o gesto de filmar torna-se parte da vida cotidiana do próprio diretor: a realização do filme se inscreve na experiência familiar, de modo que o espaço doméstico se abre à uma espécie de ficção científica, passando a aproximar o absurdo do próprio cotidiano. Em Chão, Camila Freitas acompanha uma ocupação do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra na Usina Santa Helena, em Goiás, produzindo um documentário de convivência e escuta atenta. A câmera se insere no calor dos acontecimentos, no diálogo entre o político e o poético, transformando o filme em um campo de reflexão sobre os horizontes de luta e imaginação coletiva que o movimento projeta para o país e para a luta: espécie de palco privilegiado de observação de questões políticas contemporâneas.
Já em Cidade Pássaro, o olhar se volta para a experiência do estrangeiro na metrópole. A trajetória dos irmãos nigerianos Ikenna e Amadi, separados e em busca um do outro em São Paulo, faz emergir uma percepção fragmentária e sensorial da cidade. A fotografia e as atuações conduzem o espectador por um labirinto urbano de deslocamentos, ausências e redescobertas. Por fim, Nona: se me molham, eu os queimo, de Camila José Donoso, evoca uma dimensão híbrida entre o real e o mítico. A protagonista – uma mulher idosa, rebelde e auto exilada em Pichilemu, um povoado costeiro chileno -, interpretada pela atriz não-profissional Josefina Ramirez, vive cercada por uma floresta enigmática, onde incêndios inexplicáveis são atribuídos ao Diabo. Entre memórias, lendas e fogo, o filme constrói um retrato inquietante da mulher e de seu entorno, em que a ficção parece emergir como prolongamento de sua sensibilidade.