FOCO DESALI E RAFAEL DOS SANTOS ROCHA
O cinema realizado pela parceria entre Desali e Rafael dos Santos Rocha é, antes de tudo, um cinema de experimentação de linguagens e afirmação de uma práxis. A dupla transita entre o cinema e as artes visuais, integra o coletivo 18 do Front e colabora em diversos outros projetos conjuntos. Seus trabalhos mantêm uma relação direta com o bairro Nacional, em Contagem — aspecto que atravessa os filmes e também a amizade entre os dois. Nos curtas-metragens do projeto A.P.N (Aliança Periférica Nacional), o cinema se afirma como testemunha de ações de intervenção — sobre a cidade, seus índices de poder — e também de experiências partilhadas com um grupo de crianças da zona rural. Nessa ação, uma tarde de pintura é acontecimento que entrelaça prática política e artística, com potência formativa. Os filmes não apenas registram ações diretas, como fazem parte delas de forma estratégica. Em A.P.N Manual de Guerrilha, por exemplo, a intervenção urbana se dá por meio da limpeza de monumentos. Com as mesmas buchas usadas, tece-se e ergue-se uma bandeira do Brasil, em um gesto irônico e tático. Um drible das regras do jogo, uma performance.
Também em Estudo para uma pintura o lavrador de café (2023) iremos nos deparar com essa relação com as crianças e com o processo de criação artística. Com referência às obras de Cândido Portinari, os realizadores reenquadram e repensam imagens às voltas dos muros e cercas de uma casa na periferia de Contagem. Ainda que reúna uma grande quantidade de retratos de pessoas negras em suas vidas e trabalhos no Brasil, sobretudo no período dos anos 1930 à 1950, Portinari situa-se nas ambiguidades intrínsecas ao ideário moderno nacional e institucionalizado. Faz-se assim, com todas as contradições, uma referência para pensar a história da presença negra nas artes brasileiras. E, embora essas obras precisem ser pensadas em seus contextos, o gesto do curta-metragem é antes o de procurar pensá-las à luz do mais próximo de si. O quintal de casa, o convívio com os familiares, com as crianças, os retratos das paredes sugerem perguntas incessantes: Onde está esse lavrador de café? O que é diálogo e o que é subversão? Como pode um gesto cotidiano acionar e perturbar uma iconografia? Uma imagem puxa a outra.
Por ocasião da exibição dos filmes da dupla, aproveitamos para apresentar também trabalhos autorais de cada um deles. De Rafael, apresentamos Vigília (2023), documentário que acompanha de perto Veizin, catador de material reciclável conhecido pelas ruas do centro de Belo Horizonte. De Desali, apresentamos Aula do dia (2017) — originalmente concebido como parte de uma instalação, desafiando arquiteturas e formas de poder — e Trabalho (2019), que acompanha a rotina de diferentes trabalhadores no Jardim Canadá, bairro limítrofe de Belo Horizonte. Neste último, ressoam texturas, luzes e enquadramentos que dialogam com Estudo para uma pintura o lavrador de café, sugerindo um jogo visual que se vale de certa opacidade na representação do trabalhador.