foco Fábio Rogério
Fábio Rogério é um cineasta sergipano cuja trajetória é marcada principalmente pelo trabalho com o formato do curta-metragem – reunimos no foco quinze de seus filmes. Ele também tem se dedicado ao longa-metragem e, mais recentemente, ganhou a Mostra Aurora na 28ª Mostra de Cinema de Tiradentes com Um minuto é uma eternidade para quem está sofrendo (2025), dirigido ao lado de Wesley Pereira de Castro. Entre os filmes de Fábio Rogério, nota-se uma recorrente abordagem das relações e parcerias como forma de pensar o próprio cinema – seja em colaborações com nomes como Jean-Claude Bernardet, Marcelo Ikeda e Wesley Pereira, seja na reflexão sobre os próprios espaços cinematográficos, como em Este cinema tão Augusta (2024), ou na aproximação com figuras emblemáticas da história do cinema brasileiro, como Zilda Mayo, em Crepúsculo das Deusas (2022), ou da presença de Helena Ignez em A última valsa (2024).
As experimentações de seu cinema surgem justo através das relações que pautam os filmes. Vejamos, por exemplo, as trocas de áudios de Wesley com Rogério em Eu não sei dançar, mas danço (2022), que ao fim torna-se o montador do material produzido pelo crítico ao longo de uma viagem. Aquilo que poderia se configurar como um filme de cunho pessoal – um filme-ensaio de contornos individualistas – transforma-se em uma partilha de impressões entre dois brasileiros sobre o estranhar-se diante da diferença, sobre estar em outro país. O gesto de Wesley ao se lançar à experiência do não pertencimento torna-se também uma performance de Fábio, que dança passos estranhos diante do espelho, como quem incorpora, em cena, a vivência do outro e o jogo do filme. Também em Cantando no Chuveiro (2023), vemos essa profusão de gestos compartilhados entre diferentes pessoas, unidas por uma mesma proposta – filmar-se nuas cantando durante o banho. Ao longo do filme, a montagem revela sutis diferenças: preferências musicais, modos de dançar, formas distintas de se filmar, evidenciando as singularidades que atravessam esse gesto comum.
A relação entre Fábio Rogério e Jean-Claude Bernardet, tal como se desenha em A Última Valsa, Cama Vazia (2023), Performance com Uísque (2024) e até mesmo em uma passagem de Cantando no Chuveiro, não se volta apenas à experimentação performática conduzida por Bernardet, como assume também uma postura frontal diante do envelhecimento – a morte sendo aqui pensada através do cinema. As reflexões de Bernardet sobre o corpo e a longevidade como produto industrial encontram forma nessas colaborações com Rogério, que embarca nas proposições do crítico e cineasta, dançando com suas inquietações. Essa cumplicidade se expressa de modo particularmente intenso na longa conversa que apresenta Performance com Uísque, filme que termina por retratar a relação entre ambos. A dança suspensa com Helena Ignez em A Última Valsa e os deboches de Sonia Silk – “o pior é que tenho pavor da velhice!” – em Cama Vazia tornam-se imagens síntese dos paradoxos que Bernardet e Rogério se propõem a tensionar. Já a relação com Marcelo Ikeda aparecerá sob uma chave de leituras políticas contemporâneas do Brasil, como veremos em O Brado Retumbante (2022) e Impávido Colosso (2018).