foco kalel pessôa
O foco desta semana na Embaúba Play volta-se aos filmes de Kalel Pessôa, jovem realizador paraense que vem afirmando um percurso singular no cinema recente. Entre títulos como Gehenna (2025), Tragédia das Imagens (2024), Pálido Ponto Vermelho (2024), Psicose 4.48 (2023), Casa de Cinzas (2024), Érebo (2025) e Pas d’existence (2025), sua filmografia se revela no entrelaçamento entre a ficção e o experimental, expandindo-se narrativamente também por meio de espessas camadas de sujeira visual, trocadilhos temporais e pastiches assumidos de cânones cinematográficos – sem, contudo, abdicar de uma irreverência debochada diante dos próprios temas e das condições de realização. A baixa resolução, a jovialidade das personagens, as histórias magnânimas emergem atravessadas por um amadorismo muito fresco e, sobretudo, desejante. Há um investimento nítido na fricção entre o gesto radical e formas reconhecíveis – o teen, o found footage, o horror, o sci-fi, o filme-catástrofe e entre quatro paredes – tratados como matérias tensionáveis, campos de experimentação material.
Em Gehenna, espécie de filme teen sujo, o que se apresenta é um suposto clássico underground perdido de 1984: quatro garotas cheiram cocaína e rezam o pai-nosso entre as quatro paredes de um banheiro, enquanto, do lado de fora, sob o voo constante dos urubus. impõe-se uma guerra pelas ruas de Belém A textura em VHS e a sujeira sonora estruturam uma ideia de limite – densa, emocionada – ao passo que os diálogos se aproximam de um imaginário juvenil quase ingênuo, produzindo um atrito belíssimo entre precariedade e fabulação. Já Tragédia das Imagens propõe um horror de sedução. horror das beldades, povoado por silhuetas deformadas e modelos assombradas. Os contornos em preto e branco de alto contraste vão, pouco a pouco, erguendo a suspensão psicologista das personagens, como se cada plano as víssemos empurradas para um estado de vertigem.
Em Pálido Ponto Vermelho, seu curta-metragem de maior circulação, co-dirigido com Arthur Machado e Lucas Parijós, vemos novamente sobrepor-se um tratamento da imagem a partir de seu estatuto de superfície – uma investigação de imagens diversas que passam a se encontrar pela superfície, ou melhor, por um rasgo nela. Seja a cidade de Belém tomada por uma nuvem de sangue, seja o globo terrestre rompido pela insurgência de um corpo estranho e carnoso, sejam os estudantes da Universidade Federal do Pará atravessados pela lombra sonora que esse mesmo corpo emite, há sempre a possibilidade de esticar uma imagem até a outra, forçando-as a limites experimentais para que toquem outras tragédias, outras formas de horror. O mesmo se insinua em Casa de Cinzas que, à primeira vista, parece um filme pandêmico de quarentena doméstica. Essa moldura, porém, é apenas ponto de partida. Convém seguir a intuição que o filme lança desde o início, nos objetos enquadrados e no preto e branco contrastado, até alcançar o que apodrece, silencioso, no quarto ao lado.