FOCO SUELI MAXAKALI E ISAEL MAXAKALI
PARTE I
Entre esta e a próxima semana, a Embaúba Play lança um foco especial sobre o cinema realizado por Sueli Maxakali e Isael Maxakali, incluindo suas parcerias de direção com Carolina Canguçu, Roberto Romero, Renata Otto e Roney Freitas. Nesta primeira semana, são lançados na plataforma os filmes GRIN (Roney Freitas, Sueli Maxakali, Isael Maxakali, 2016), Yãy tu nũnãhã payexop: Encontro de Pajés (Sueli Maxakali, 2021) e Nũhũ yãgmũ yõg hãm: Essa terra é nossa! (Sueli Maxakali, Isael Maxakali, Carolina Canguçu, Roberto Romero, 2020). As obras destacadas nesta semana articulam o documentário à uma denúncia histórica direta e uma experimentação de linguagens do cinema, abordando a pandemia, o período da Ditadura Empresarial-Militar e os entraves atuais enfrentados pelo povo Maxakali no processo de demarcação de suas terras.
Em GRIN, conhecemos a história da formação da Guarda Rural Indígena durante a ditadura, contada pela voz dos mais velhos – como ressalta a narração de Isael Maxakali – e sustentada pelo tempo de escuta que o filme constrói para alcançar os relatos de violência vividos pelos parentes. As formas de violência que atravessam o tempo se desdobram não apenas na história narrada da GRIN, mas também na de Daldina Maxakali – a quem o filme é dedicado -, assassinada em janeiro de 2015. Já Yãy tu nũnãhã payexop: Encontro de Pajés se move em outra direção – de força, de alegria – condensada em um banho de rio. O filme acompanha o deslocamento de várias famílias Maxakali em busca de terras mais férteis e protegidas durante a pandemia de Covid-19, saindo da reserva da Aldeia Verde (Ladainha, MG). Nesse movimento, abre-se a possibilidade de transmissão dos saberes dos mais velhos às novas gerações, por meio de uma relação fortalecida com os yãmĩyxop.
Em Nũhũ yãgmũ yõg hãm: Essa terra é nossa!, somos conduzidos corpo a corpo, corpo à terra, pela vastidão do território Maxakali – ainda não demarcado, invadido por fazendas e cidades. O filme desenha um percurso onde os cantos alcançam histórias, reacendem vestígios, e a câmera se torna testemunha do roubo e da mortificação da terra, dos parentes perdidos, das estratégias de proteção forjadas frente às sucessivas invasões do homem branco. Além disso, revela a persistência concreta da memória do povo Tikmũ’ũn-Maxakali, que se faz presente e perdura, se contando pela extensão da terra e do filme.
PARTE II
Entre esta e a última semana, a Embaúba Play dedica um foco ao cinema de Sueli Maxakali e Isael Maxakali, reunindo também suas parcerias de direção com Carolina Canguçu, Roberto Romero, Renata Otto e Roney Freitas. Nesta segunda etapa, chegam à plataforma os filmes Yãmĩyhex, as mulheres espírito (Sueli Maxakali, Isael Maxakali, 2020), Xupapoynãg (Sueli Maxakali, Isael Maxakali, 2011), Kakxop Pit Hãmkoxuk Xop Te Yumugãhã: Iniciação dos Filhos dos Espíritos da Terra (Isael Maxakali, 2015) e Quando os yãmiy vêm dançar conosco (Isael Maxakali, Sueli Maxakali, Renata Otto, 2012). As obras em destaque articulam o cinema documentário à dimensão ritual e apresentam diferentes perspectivas sobre as Yãmĩyhex e os Yãmîyxop, com olhares para gestos que atravessam gerações e para aqueles que se transformam, para o envolvimento coletivo da aldeia em torno dos rituais e também para uma dimensão de linguagem que preserva seus segredos (sobretudo ao redor do kuxex – a casa de religião -, mas também sobre a totalidade dos rituais).
Em Quando os yãmiy vêm dançar conosco acompanhamos passagens do dia para a noite, conduzidos pelos cantos dos pajés e pela narração que relaciona-se aos acontecimentos filmados. É um filme que testemunha a chegada dos Yãmîyxop na Aldeia Verde (Ladainha/MG), as receptividades que se seguem, a passagem de outros povos-espírito pela aldeia, a montagem do poste e as danças. Já em Yãmĩyhex, as mulheres espírito, que acompanha o mesmo ritual, veremos procedimentos de encenação que contam a história das Yãmĩyhex – e também estas estão no filme a partir da aldeia, diferente de Quando os yãmiy, que as vemos chegar. Há uma atenção maior do filme ao lugar das mulheres dentro do ritual, chamando atenção às relações de gênero evocadas através dele. É também um filme que evocará, com mais intensidade, a dimensão de um segredo – inclusive, marcado pela própria narração de Sueli Maxakali em torno de um dos cantos.
Em Xupapoynãg, acompanhamos também o ritual dos Yãmîyxop, com atenção especial à figura da lontra, uma yãmiy sagrada que retorna à aldeia para vingar a morte e a exploração de seus parentes, que não devem ser caçados por humanos. Ao redor do poste dos Yãmîyxop e em frente à casa de religião, eles expressam suas queixas e indicam o enriquecimento obtido com a exploração de seus parentes. As mulheres assumem a responsabilidade de repelir a invasão, confrontando diretamente lontras e, depois de expulsá-los, compartilham risadas sobre a intensidade da situação. Por fim, Kakxop Pit Hãmkoxuk Xop Te Yumugãhã: Iniciação dos Filhos dos Espíritos da Terra aproxima-se das crianças ao mostrar o ritual de iniciação dos meninos. Guiados pelo tatakox (espírito da lagarta), eles passam a ser cuidados pelos pajés e pelos yãmiyxop, conduzidos ao kuxex e expostos a diversos aprendizados. É especialmente interessante observar a interlocução direta de Isael Maxakali com o ritual e com os meninos: tendo ele próprio passado pela iniciação, estabelece uma comunicação aberta e sensível com eles.