foco tiago de aragão
Nesta semana, apresentamos um foco dedicado a três filmes de Tiago de Aragão, cineasta que volta seu olhar para as questões políticas do Brasil a partir do epicentro de Brasília. Em obras que transitam entre o documentário observacional e o participativo, Tiago se aproxima das experiências do país a quente, convidando-nos a refletir sobre a construção imagética da política institucional contemporânea. Ainda, seus filmes buscam registrar as mobilizações de rua e as experiências de luta política dos povos indígenas em um período de intensas transformações – entre 2016 e 2021 -, oferecendo um olhar atento ao movimento em sua urgência.
No longa A Câmara (2024), co-dirigido com Cristiane Bernardes, os cineastas tensionam o espaço do parlamento brasileiro como ambiente performático, onde o político e o estético se enredam. Através de um dispositivo observacional, o filme retira a política da lógica do espetáculo e a reinscreve no cotidiano – nos gestos, nos corredores, nas pausas – tornando tátil aquilo que a cobertura midiática costuma reduzir a discurso. A escolha de acompanhar mulheres eleitas de diferentes espectros políticos faz emergir uma perspectiva de gênero que singulariza a obra e espessa o olhar sobre o poder, permitindo que as mulheridades em cena revelem tanto as engrenagens institucionais quanto as estratégias de presença e negociação. Mais do que registrar, o filme pesquisa: sua forma é método. Ao esgarçar a imagem da decadência política de direita até o limite do absurdo, A Câmara encontra na própria crise política uma estética do impasse, da contradição e da frontalidade.
Em Entre Parentes (2018) e Luta pela Terra (2022), este último co-dirigido com Camilla Shinoda, Tiago de Aragão estabelece uma forte relação entre cinema documental e política, observando marcos da história recente do Brasil a partir de um evento que condensa e denuncia suas tensões mais agudas e violentas: o Acampamento Terra Livre. O primeiro filme acompanha a edição de 2016, um ano após o golpe que afastou Dilma Rousseff da presidência; o segundo, de 2021, quando os direitos dos povos indígenas, já fragilizados, sofriam novas ameaças no contexto pós-pandemia. Entre a Esplanada, os encontros entre parentes e os gestos de demarcação de territórios – reiterados nas imagens e nos sons das marteladas que fixam placas de limite -, os filmes registram momentos decisivos da luta indígena nos últimos anos, espelhando um cenário político mais amplo e revelando, em cada ato de resistência, a persistência de uma luta coletiva.