homenagem a jean-claude bernardet
No último sábado (12), acordei com a mensagem de um professor me contando que Jean-Claude Bernardet havia feito sua passagem. No dia anterior, falávamos dele e de um texto no qual saía em defesa de Ainda agarro esta vizinha (Rovai, 1974), comprando a discussão intensa ao redor das pornochanchadas. Fato é que não havia pessoa melhor para me dar a notícia, que não um professor – entre nós, e creio que entre muitos outros professores e alunos, Jean-Claude corresponde com o desejo de partilhar o cinema como discussão viva, acesa, arriscada. Nunca o conheci, mas gostava de imaginá-lo no alto do Edifício Copan mirando São Paulo e seu enxame de imagens – ali, talvez, preparando o próximo texto, a próxima dança, a próxima personagem. Das leituras amplas em diálogo profundo com seu tempo às performances transgressoras – seja nos anos 1970 ou em 2025 -, a vasta trajetória de Bernardet deixa ao cinema brasileiro contribuição de enorme importância. Escreveram algumas vezes nos últimos dias, repito aqui: ainda falaremos muito sobre ele.
Jean-Claude foi crítico, teórico, cineasta, professor, ator, amigo, amante, inventor, rebelde, sempre inquieto. Escreveu durante muitos anos para o Suplemento Literário de O Estado de S. Paulo, além de colaborar com diversos outros veículos – destaco aqui a Lampião da Esquina -, e trabalhar na Cinemateca Brasileira. Ao longo da vida, publicou muitos livros fundamentais, como Brasil em tempo de cinema (1967), Cineastas e imagens do povo (1985), Voo dos anjos: Bressane, Sganzerla (1990), O autor no cinema (1994 e 2018), Historiografia clássica do cinema brasileiro (1995), entre outros. Envolveu-se também diretamente com a realização, como no roteiro de O caso dos irmãos Naves (Luís Sérgio Person, 1967) e Um céu de estrelas (Tata Amaral, 1996), e atuando em filmes como Gamal, o delírio do sexo (João Batista de Andrade, 1969), Ladrões de Cinema (Fernando Coni Campos, 1977) e Orgia, ou o homem que deu cria (João Silvério Trevisan, 1970). Como diretor, realizou uma série de filmes, da parceria com João Batista de Andrade em Paulicéia Fantástica (1970) ao mais recente A Última Valsa.
Nos últimos anos, seguiu escrevendo livros e trabalhando cada vez mais com atuação. É linda a cena de Pingo D’água (Taciano Valério, 2014), na qual Jean-Claude contracena com Everaldo Pontes e, entre flertes e carícias, responde à fala do personagem – que afirma estar fazendo sua última performance, por achar que já não têm mais idade para isso – com a pergunta: “Não é a última. Quantas vezes você já disse isso? Uma, duas, três, quatro, cinco?”, enquanto tenta seduzi-lo para um beijo. É também de uma natureza amorosa e finita a imagem de Jean-Claude ao lado de Helena Ignez, no alto de uma montanha íngreme, suspensa, de braços abertos – modulando o corpo através do vento, dançando juntos algo guerreiro, livre e fúnebre -, ao final de A última valsa (Fábio Rogério e Jean-Claude Bernardet, 2024). Encontramos aqui essa relação do corpo com a história, entre Helena e Jean-Claude, incansáveis figuras de coragem, sempre a postos para bagunçar o que se espera do cinema. Ambos, sem medo de lidar frontalmente com os estados limítrofes da vida e do corpo, tomando-os como matéria de invenção.
Lembro de assistir Cama Vazia (Fábio Rogério e Jean-Claude Bernardet, 2023) quando estava começando a escrever crítica, completamente espantada, cheia de vontade e medo de escrever sobre o filme. À época, achava que escrever sobre Bernardet era muito para uma jovem. Hoje penso justo o contrário, que sua obra não se interessa por essa coisa de figura intocável. Para Bernardet, o quente sempre foi intervir, movimentar. Da vitalidade que surge entre gerações, caminhando e insistindo juntas, é que se desdobram as ideias, os projetos, as discussões, as imagens distintas, afinal. Assim espero que muitas jovens venham a escrever sobre seus filmes, tomadas pelas performances ambíguas, por seu corpo crítico, por aquilo que nasce do olhar frontal à morte, por insistir na interlocução e nas parcerias. Que sigamos descobrindo Bernardet aos poucos, curiosidade contínua levando de uma crítica à outra, a seus diálogos radicais com este e outros tempos, nessa interlocução ativa entre pensar e fazer cinema no Brasil. Quando penso em Bernardet, penso onde pintam conflitos de pontos de vista, onde a crítica e os filmes são o que “não devem” ser.
Para esta semana, preparamos uma homenagem especial a ele, reunindo uma seleção de nove filmes dos últimos doze anos nos quais participou como ator e diretor. São obras marcadas por suas parcerias e pela constante experimentação com múltiplas linguagens – teatro, performance, conversação, ensaio, ficção -, trabalhando com diferentes maneiras (possíveis, ao alcance) de fazer cinema. A programação inclui: A Última Valsa (Fábio Rogério e Jean-Claude Bernardet, 2024), Performance com Uísque (Fábio Rogério, 2024), Cantando no Chuveiro (Fábio Rogério, 2023), Cama Vazia (Fábio Rogério e Jean-Claude Bernardet, 2023), Pingo D’Água (Taciano Valério, 2014), Hamlet (Cristiano Burlan, 2014), Fome (Cristiano Burlan, 2015), O Homem das Multidões (Cao Guimarães e Marcelo Gomes, 2013) e #eagoraoque (Rubens Rewald e Jean-Claude Bernardet, 2021). Esperamos que o encontro com os filmes seja radiante, revelando nuances que ainda não havíamos percebido. Que sigamos aprendendo sempre com ele.
(Barbara Bello)
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