JARDINS DO SAGRADO: CULTIVANDO INSABAS QUE CURAM
O conjunto de nove filmes que formam a série Jardins do Sagrado, com direção de César Guimarães e Pedro Aspahan, propõe uma experiência de espectatorialidade bastante incomum, se comparada a maioria dos filmes e produções audiovisuais disponíveis. A montagem econômica, com poucos cortes, a fala de cada pessoa filmada apanhada em sua duração, os gestos e práticas sagradas encenadas sem pressa ou fragmentação, convidam quem assiste a uma experiência de atenção e partilha, semelhante a de uma aula – mais que espectadores, somos aprendizes dos mestres e mestras, que nos ensinam a sabedoria ancestral das folhas (insabas) e dos orixás, inquices e encantados das tradições afro-indígenas no Brasil. Dessa vez, o espaço de aprendizagem não será a sala fechada, mas espaços abertos, parques e matas da cidade. Os professores e professoras, lideranças de terreiro, quilombos e comunidades indígenas, cultivam a experiência da transmissão, da partilha, da construção de saber e memória, abrindo um convite à escuta atenta. São “saberes que se transmitem e se reinventam na experiência – um canteiro, um quintal, um espaço comunitário, um parque, uma mata, com folhas das quais se sabem o nome, o momento adequado de catá-las, os modos de encantá-las, os manejos e as receitas”, como explica o professor André Brasil, no prefácio do livro lançado como parte integrante do projeto.
Os documentários reunidos nesta coleção fazem parte do projeto Jardins do Sagrado: cultivando insabas que curam, resultante de uma parceria entre o Programa de Formação Transversal em Saberes Tradicionais da Universidade Federal de Minas Gerais e a Secretaria da Cultura da Prefeitura de Belo Horizonte. Participam nove mestras e mestres: o Babalorixá Sidney d’Oxóssi, Darupü’üna, Humbono Misiò Luiz Fernando, Mam’etu Muiandê, Pai Ricardo, Tat’etu Jalabo, Toá Canynã Pankararu, Iyá Ewé Angela Gomes, Yalorixá Ione Ty Oyá. Aprendemos, ao ouvir cada um e cada uma, um pouco sobre Candomblé Angola, Jeje e Ketu, sobre Umbanda e sobre a cosmovisão de mestras indígenas do Vale do Jequitinhonha (Povo Pankararu) e da Amazônia (Povo Tikuna). Além dos ensinamentos, acompanhamos rituais e cantos de saudação às plantas, árvores, folhas e entidades a elas associadas. Nas palavras de Brasil, “a força e a precisão das palavras de mestras e mestres de comunidades tradicionais traçam relações que tecem os jardins do sagrado e que entretecem visível e invisível; ancestralidade, contemporaneidade e porvir; natureza e sociedade; cuidado com o vegetal e ética de vida em comunidade.”
Ao reconhecer as profundas relações entre a natureza e o plano espiritual e ao sair em defesa dos seres não humanos – bichos, espíritos, folhas, terra, água, vento – enquanto portadores de agência e sabedoria, os mestres e mestras com quem aprendemos nesta série de filmes nos convidam a repensar e reinventar não apenas nossos modos de espectatorialidade, mas nossas formas de viver e construir conhecimento, nossa relação com o mundo.
Filmes
A Ecologia dos Orixás
A cobra protetora das pedras brancas
Cada árvore tem seu espírito
Eu sou um ser vegetal
O povo estrangeiro
A mata é um pedaço de mim
O jardim que surge
O caçador de uma flecha só
O ancestral que voltou à sua aldeia